Saturday, July 12, 2008

REMEXENDO A POEIRA

Quatro meses. Dependendo do ponto de vista, muito tempo. Olhando para trás talvez seja mesmo. É incrível como as coisas acontecem e mudam a sua perspectiva de mundo de uma hora para outra. Pessoas, que antes eram tudo pra você, viram apenas estranhos. Outros, que pareciam que não tinham qualquer identificação com sua vida, se mostram como os que você mais deve confiar. Realmente, a vida é um pêndulo.
Bom, nesses quatro meses que fiquei fora, muita coisa aconteceu. Para quem lê, talvez seja pouco, mas para quem viveu esses momentos, foi muito. Fiz aniversário (22 anos! Parabéns para mim!), saí em lugares estranhos, amigos meus vão viajar, conheci gente, conheci melhor outros, fui na Virada Cultural (meu Deus, que dia alternativo!!!), coisa que queria fazer há muito tempo e não pude, mas que outros tinham roubado a minha idéia e feito antes de mim, mesmo tendo me criticado horrores quando eu sugeri de irmos, encerrei um ano de estágio (nem eu achava que ia durar tanto tempo), continuarei no estágio por mais um ano, fui ao teatro, ouvi o novo CD do Teatro Mágico (maravilhoso, com a mesma qualidade do anterior), fiz meu projeto de monografia, etc., etc, etc.
Porém, ainda não estou satisfeito. Falta muita coisa. E, se tudo der certo, vou fazer. Aqueles que pensam que minha vida era parasitária deles, estão muito enganados. Não é porque você esqueceu de mim que eu esqueci de mim mesmo. Desculpe, mas você não era tão importante.
Bom, agora vamos às críticas. Primeiro, o teatro. Faz tempo que não vou, sinceramente, tenho que começar a ir mais. Mas a última peça que vi (por sinal, no dia da Virada Cultural), foi "Senhora dos Afogados", de Nelson Rodrigues, na versão do Grupo Macunaíma, de Antunes Filho. O texto, sinceramente, não é um dos mais fortes de Nelson, apesar de todas as suas críticas à sociedade estarem lá (obsessão, traição, desejo, marginalizados da sociedade, etc.). Porém, ainda que assim seja, vale a pena pelo primor que é a montagem. Elenco afiadíssimo, direção impecável, marcações, iluminação, atuação, tudo. Antunes Filho sabe o que faz, e com maestria. Montar Nelson é muito difícil, principalmente pelo fato de que há uma linha muito tênue entre o que se deve fazer e o que ficará gratuito, dado o peso de seu texto. Mas, em nenhum momento, essa barreira foi quebrada. Foi, sem sombra de dúvida, uma das peças mais bem dirigidas e montadas que assisti.
Quanto aos filmes, fica um pouco difícil assistir sem estar de férias, mas me esforcei. Assisti muita coisa boa, mas destaco apenas alguns. Em primeiro lugar, no âmbito internacional, vi "Queria Wendy" de Lars Von Trier, mesmo diretor de "Dogville". O filme se propõe a fazer uma crítica sobre as armas na sociedade norte-americana, e o poder que elas exercem. Conta a história de alguns garotos que fundam uma sociedade para exercerem sua paixão por suas armas. Porém, isso vira um problema quando um deles, ex-delinquente, ingressa no grupo, desestabilizando as relações e obrigando os outros a se envolverem em um evento com consequências criminosas por causa das armas. Lars é muito bom como diretor, e o filme é bem feito, principalmente pela crítica não explícita. Ah, e a música tema é muito interessante.
Vi também um filme que todos, mas absolutamente todos, deveriam ver. Chama-se "C.R.A.Z.Y. - Loucos de Amor", filme canadense, mas falado em francês. Trata-se da história de uma família cujas iniciais dos filhos formam a palavra CRAZY do título. Centrada em Zac, retrata três décadas da sua vida, as quais se passam principalmente nos anos 70 e 80. Foca-se, principalmente, na relação deste com sua família e, principalmente, seu pai, e como essa relação torna-se mais problemática por causa de sua sexualidade. O diretor, por sua vez, consegue tratar do tema de uma maneira fenomenal, com toda delicadeza e ambiguidade que ele merece, tornando o filme poético e falando tudo que deveria falar, embora não com palavras expressas. É curioso que esse filme foi lançado na mesma época de Brokeback Moutain, mas não teve a mesma repercussão na mídia como deveria. Vale assistir os dois, até para comparar. Enquanto Brokeback é mais adulto, retratando o amor como uma força incontrolável e mais focado nos caubóis, C.R.A.Z.Y. fala mais de descobertas, de crescimento, e opta por seguir um outro caminho com o tema, qual seja, a relação da sexualidade com a família. Além do que, o primeiro é muito mais explicito que o segundo. Mas isso não significa que um seja melhor que outro.
Bom, acho que por hoje é isso. Depois conto sobre minhas incursões no cinema nacional. Não foram poucas e agradeço ao Canal Brasil por isso.

Sunday, March 16, 2008

MEU AMIGO, LEMBRA QUANDO ÍAMOS MUDAR O MUNDO?

Às vezes os maiores revolucionários escondem-se atrás da mais aparente normalidade.

Sunday, March 02, 2008

POR QUE EU AINDA ME SURPREENDO?

Nunca imaginei que alguém assim pudesse remoer problemas tão pequenos.
Sempre pensei que a ligação que tínhamos teria condições de superar essas insignificâncias.
Sem mais.

Sunday, February 24, 2008

A BELEZA DA CONTRADIÇÃO


Como, há algum tempo atrás, eu fiz uma "pequena" crítica à revista Veja, gostaria aqui, novamente, de reproduzir dois textos: um, publicado no "O Estado de São Paulo" de hoje, e o outro publicado na revista dessa semana. Ambos tratam do mesmo assunto, ou seja, a minissérie "Queridos Amigos" exibida pela Globo essa semana (diga-se de passagem, uma opinião pessoal, um primor em texto, direção e atuação).
Não vou falar muita coisa para não estragar o impacto, gostaria apenas que vissem com seus próprios olhos.
Depois eu que sou revolucionário...


"DOURADOS, REBELDES E, AGORA, DEPRÊS (Mário Viana, O Estado de São Paulo, 24/02/2008)


A estréia de Queridos Amigos, de Maria Adelaide Amaral, foi um sopro de oxigênio nos organismos desesperados com a indigência cultural dos BBBs. Pena que, justamente por causa da Siliconelândia, a série vá ao ar muito tarde. Quem resistir ao sono, será recompensado. Queridos Amigos é um belo trabalho conjunto de roteiro, direção e elenco - onde brilham Denise Fraga, Débora Bloch e Bruno Garcia.
(...)
Na série, o cenário é o Brasil dos anos 80. A ação começa em 89, pouco antes de o País pegar fogo com a campanha que opôs Lula e Collor (na qual, ironicamente, a Globo teve papel discutível). (...) Mas, em poucas cenas, espanta ver o quanto o Brasil se transformou desde aquela época. A geração que dançou coladinho nos anos dourados e fez a revolução nos anos rebeldes, chegou ao fim da década de 80 em estado de depressão. E não é porque a autora tem uma visão amarga da época. São suas criaturas que entraram em crise da meia idade com um travo na boca. Ninguém avisou, durante passeatas e temporadas no exílio, que eles iriam envelhecer. Os sonhos de mudar o mundo viraram fumaça. (...) A geração que quis derrubar sistemas não varreu os próprios preconceitos.
(...)
Se driblar o didatismo que permeia suas séries históricas, Maria Adelaide marcará um golaço, tocando em feridas incômodas, porém fundamentais para que nos entendamos como país. E a boa trilha sonora certamente terá espaço para a gravação de Elis Regina para Como Nossos Pais, de Belchior. Nada mais adequado - e doloroso."


"COM AMIGOS ASSIM... (Marcelo Marthe, Revista Veja, 27/02/2008)


"No ar desde a semana passada, a minissérie Queridos Amigos é ambientada num momento crucial da história recente: o ano de 1989, quando a queda do Muro de Berlim precipitou o fim das ditaduras comunistas do Leste Europeu. (...) A ressaca da queda do muro é o catalisador da trama, centrada no questionamento existencial dos protagosnistas. (...) É uma gente com um pé na contracultura e o outro na militância política.
(...)
Em seus melhores momentos, Queridos Amigos expõe quanto tais personagens têm de patético. Tito, o comunista casca-grossa, não se conforma com seu emprego - selecionar moças para sessões de fotos sensuais numa revista de quinta categoria (ele merecia coisa pior, convenhamos). Bia, a bicho-grilo, refugia-se na astrologia para esquecer seus fracassos. No somatório final, contudo, a série acaba tratando essa turma de forma um tanto compassiva, como admite a própria Maria Adelaide. Nos primeiros capítulos, ofereceu-se uma visão pra lá de simpática deles como seres humanos, sem que se denunciassem com todas as letras o autoritarismo e o atraso do projeto político que abraçavam. O problema é que as mesmas idéias ainda se arrastam por aí como fantasmas. Prontas a fazer estrago."


Diferentes, não? E você, qual opinião apóia? Qual tipo de reportagem seria melhor para ser veiculada? Qual cometeu menos erros?
Mistério...

Sunday, February 17, 2008

LA VIE EN ROSE (EM HOMENGAGEM A QUEM ESTÁ NA FRANÇA)

Tempinho (ou tempão) sem postar. Falta de inspiração mesmo. Às vezes preparava as palavras, mas não escrevia nada, às vezes sentia que devia escrever, mas esquecia as palavras. Inadequação de tempo com lugar. Acontece. Sempre.
Coisas aconteceram. Férias. Viagens, realidades, passeios, acordar tarde, dormir mais tarde ainda, trabalhar, etc. E o principal: buracos para pensar. Em que? Boa pergunta.
Notas rápidas. E, surpeendentemente, algumas conclusões:
01. É difícil descobrir que você sobrou em algum lugar. Pior que isso é descobrir quando alguém fala discretamente, não com essas palavras. Só uma coisa: não adianta tentar consertar depois. O estrago já está feito. E nada será mais o mesmo.
02. Você já se sentiu tão rodeado, mas tão rodeado, que ao mesmo tempo está sozinho? Eu já. Tenho medo disso.
03. Não sou monopolista. Sou cosmopolita. Por isso alguns lugares me estranham, e eu estranho outros lugares.
04. Há um quatro? Mesmo?
Bem, continuamos aqui. Por enquanto. Enquanto eu quiser.
É hora de olhar para trás e ver o que queríamos ser com o que nos tornamos.
E lembrar que algo surpreendente acontece quando viramos uma esquina.
Mudando de assunto, assisti alguns filmes. Poucos, é verdade, mas gostaria de falar dos mais legais. Em primeiro lugar, homenageando o cinema nacional, vi "O Diabo a Quatro". Aparentemente simples na história (garota se apaixona por surfista que só pensa em drogas e acaba virando prostituta para conquistá-lo), traz um retrato contundente da juventude classe média carioca, sua relação com o amor, os estudos, o futuro, e o entusiasmo de viver. E, claro, há o final revelador: quem comandava quem na relação estranha entre a prostituta, o garoto e o agenciador? Lógico que só se saberá quem assistir o filme. Não conto pormenores aqui. E parabéns pela ótima atuação de Maria Flor nesse que foi o seu filme de estréia. A atriz de Malhação mostrou que tem mais garra do que parecia.
Assisti também uma continuação perfeita. Geralmente não gosto muito de seqüências, acho que se tornam desgastantes (principalmente em filmes de terror), mas esse filme me fez rever meu posicionamento anterior. "Bonecas Russas", a continuação de "Albergue Espanhol". Enquanto o primeiro filme, também ótimo, trazia a linguagem da euforia jovem, seus sonhos e buscas dentro da realidade estudantil universitária, esse dá um salto de cinco anos e mostra os atores agora na idade adulta, beirando os trinta anos e fazendo as reflexões necessárias do passado que conquistaram, mas sem perder os sonhos que fazem a marca da juventude. Mas, para assistir um, tem que assistir o outro, ou não haverá graça.
Finalmente, fui ao teatro (!!!!). Vi a peça "Simceramante - ou a trágica história de um dono da verdade", em cartaz até essa semana no Teatro Imprensa, Sexta a Domingo, às 21H30. Boa, bem feita, com atores bem dirigidos e esforçados. A história fala de um casal que não conseguia mentir, sendo que essa característica foi a responsável pela decadência dos dois. O figurino bem feito, inspirado nos góticos, a iluminação acertada e sombria e a trilha sonora também contribuem para o efeito intimista e sombrio da peça. O final, todavia, ficou um pouco no ar, e ainda não sei se essa era a intenção mesmo, mas mesmo assim valeu o ingresso. E a oportunidade de ir ao teatro.
Só isso. E esperemos, pois afinal, está acabando.

Thursday, January 17, 2008

MOMENTO DE PROTESTO!!!!!!


Já fazia tempo que eu queria fazer este post. Fiquei sanbendo do assunto pouco depois do Natal, mas como eram festas, depois fui viajar, e aí era início de ano, fui postergando a necessidade de fazer esse protesto especial. Mas hoje, depois de uma conversa no trabalho, voltei a pensar no assunto e decidi que não dava mais para adiar.
Então, fiquei sabendo que, depois de 13 anos, aquele que foi o meu grupo de teatro durante toda a adolescência em Capivari acabou. Sim, o eterno Maktub (estava escrito, em arábe), chegou ao fim.
Primeiramente, pode-se pensar: claro, o Anglo despediu o professor, o Bile, e pronto. Mas não. Diversamente do que ocorreu com o Pandora, em Americana, e o outro grupo que o Bile dirigiu em Piracicaba, a decisão de terminar não partiu de cima, da direção do colégio, mas de baixo. Simplesmente, não havia mais atores para continuar a caminhada iniciada em 1994.
A única sensação que fica é uma frustração enorme com o rumo que as coisas estão tomando. Um grupo que sempre se mostrou tão atual, tão preocupado com os assuntos mais fundamentais da vida humana, que trazia jovens que queriam dizer alguma coisa e não serem mais um na multidão mundial de seres sem rosto, um grupo que trouxe a poesia de João Cabral de Melo Neto, a crítica bem humorada de Ricardo Meirelles, a preocupação humana de Millôr Fernandes, o espelho escolar de Naum Alves de Souza, o texto afiado e emocionante de Luís Alberto de Abreu, o cotidiano de Luís Fernando Veríssimo, o talento local de Rodrigues de Abreu e de jovens atores que estavam apenas começando, um grupo que revelou futuros talentos (Vivian, Cristina, Mário, Larissa, e quem sabe quem mais?), acabou, assim, porque ninguém mais foi.
O rumo que as coisas estão tomando naquela cidade me assustam. Penso comigo: não éramos assim antes. Apesar de ver que cada vez mais a grande maioria dos jovens ainda pensa com aquela cabeça projetada em 1950, havia um grupinho de "indecentes" e "subversivos" que queria fazer a diferença. Meu Deus, o que aconteceu? Vejam além do fim-de-semana, por favor!!! A vida não se esgota na boate no sábado à noite!!! A vida é mais!!!! E vai além de Capivari, do que você fez quando você saiu ontem...
O que aprendi no teatro, apenas para informação dos que discordam de mim, vejo hoje que às vezes é mais importante do que o que aprendi na escola. Podiam ter menos importância na época, mas hoje, como eu seria diferente se não as tivesse ouvido.
É triste, eu sei, e penso que todos aqueles que um dia passaram pelo grupo devem achar a mesma coisa. Ainda tenho esperanças, é verdade, mas o gosto amargo na boca é forte demais para ser esquecido.
Fiquemos de luto, por favor.
Não é possível que isso pudesse estar escrito.

Sunday, January 06, 2008

RECEITA DE ANO NOVO

Carlos Drummond de Andrade uma vez escreveu:


Receita de Ano Novo

Para você ganhar um belíssimo Ano Novo
cor de arco-íris, ou da cor da sua paz,
Ano Novo sem comparação como todo o tempo já vivido
(mal vivido ou talvez sem sentido)
para você ganhar um ano
não apenas pintado de novo, remendado às carreiras,
mas novo nas sementinhas do vir-a-ser,
novo até no coração das coisas menos percebidas
(a começar pelo seu interior)
novo espontâneo, que de tão perfeito nem se nota,
mas com ele se come, se passeia,
se ama, se compreende, se trabalha,
você não precisa beber champanha ou qualquer outra birita,
não precisa expedir nem receber mensagens
(planta recebe mensagens?passa telegramas?).
Não precisa fazer lista de boas intençõespara arquivá-las na gaveta.
Não precisa chorar de arrependido
pelas besteiras consumadas
nem parvamente acreditar
que por decreto da esperança
a partir de janeiro as coisas mudem
e seja tudo claridade, recompensa,
justiça entre os homens e as nações,
liberdade com cheiro e gosto de pão matinal,
direitos respeitados, começando
pelo direito augusto de viver.
Para ganhar um ano-novo
que mereça este nome,
você, meu caro, tem de merecê-lo,
tem de fazê-lo de novo, eu sei que não é fácil,
mas tente, experimente, consciente.
É dentro de você que o Ano Novo
cochila e espera desde sempre.